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Plantão superlotado não é defesa automática: o que pode colocar seu CRM em risco

Você terminou o plantão exausto.

Sala cheia.

Paciente aguardando no corredor.

Equipe reduzida.

Sistema lento.

Pressão para atender rápido e “fazer a fila andar”.


Você fez o possível dentro da realidade que tinha. Mas dias depois surge aquela pergunta silenciosa: “Será que eu registrei tudo como deveria?”

Essa dúvida não é exagero. Ela é jurídica.

Porque, se houver uma ação daqui a dois ou três anos, ninguém vai analisar o caos do plantão. O que será analisado é o seu prontuário.


Lembre que o Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) determina que é dever do médico elaborar prontuário para cada paciente, com registros claros, completos e suficientes para garantir continuidade do cuidado.

Mais do que isso: deixar de elaborar prontuário ou fazê-lo de forma incompleta pode gerar responsabilização ética.

Ou seja, evolução genérica não é apenas fragilidade defensiva.Pode virar processo no CRM.

E, dependendo do caso, as consequências vão de advertência até suspensão profissional.


Ocorre que muitos profissionais acreditam que, se a unidade estava superlotada ou com equipe insuficiente, isso por si só os protege juridicamente. Mas, não é bem assim.

De uma mesma conduta/paciente podem três frentes processuais podem ser abertas:

  • Cível, se houver pedido de indenização por dano;

  • Ética, no Conselho Regional de Medicina;

  • Penal, em casos mais graves, como lesão corporal ou homicídio culposo.

Em todas elas, o primeiro documento analisado será o prontuário.

A precariedade estrutural pode ser considerada na análise. Mas ela não substitui a obrigação de registrar adequadamente o que foi feito — ou o que não pôde ser feito.


Na maioria dos processos que analisamos (arriscaria a dizer 98%), o que mais ocorre não é imperícia técnica. Mas sim falha documental, como:

  • Evolução padronizada.

  • Ausência de justificativa da conduta.

  • Falta de registro de limitação estrutural.

  • Condutas verbais que nunca foram formalizadas.


Doc, se faltou exame, medicação ou suporte, isso precisa estar registrado!

Caso contrário, pode parecer que você simplesmente deixou de solicitar ou agir.

Em nosso meio judiciário, há um velho ditado de o que não está escrito, inexiste. Portanto, sempre registre.


Doc, principalmente no início da carreira, é comum aceitar condições difíceis, dobrar plantão, cobrir colegas e “segurar a unidade”. Mas, lembre-se:

  • Comprometimento é virtude.

  • Fragilidade documental é risco.

  • O prontuário não é burocracia. É sua principal ferramenta de proteção jurídica.


Assim, antes de sair do próximo plantão, faça um teste simples:

  • Minha evolução está individualizada?

  • Justifiquei minha conduta?

  • Registrei limitações estruturais?

  • Formalizei orientações e ajustes?

Se a resposta for sim, você reduziu significativamente seu risco.

Se não for, ainda dá tempo de corrigir — enquanto o caso está fresco na memória.

Porque o plantão termina em 12 ou 24 horas, mas um processo pode durar anos.


 
 
 

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